Quem eram e o que fizeram os filhos de Deus?

ens-filhos-de-deus

Quem eram os filhos de Deus?

O dilema envolvido no breve relato de Gênesis 6.1-4 tem a ver com a verdadeira identidade dos chamados “filhos de Deus”. Por ser a primeira vez que o termo aparece na Bíblia, há uma dificuldade natural em identificar quem são eles. A suspeita inicial é de que eles sejam seres angelicais que abandonaram seu estado original de santidade. De onde surgiu essa ideia?

Há três fontes principais (dentre muitas outras). Primeiro, a referência em Jó 38.7 aos filhos de Deus: “quando as estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus”. Conquanto não seja fácil estabelecer uma relação cronológica entre o livro de Jó e o relato de Gênesis 6, os filhos de Deus nesta passagem são inquestionavelmente seres angelicais. Se eles estavam presentes no ato da criação, rejubilando diante do poder do criador, fica a dúvida se estes filhos de Deus eram seres angelicais caídos ou não. Eu creio que os anjos no livro de Jó não eram caídos.

Segundo, a alusão feita em 2 Pedro 2.4-5 “Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo; e não poupou o mundo antigo, mas preservou a Noé, pregador da justiça…”. Embora o texto não diga explicitamente que os anjos que pecaram são os filhos de Deus, mencionar o fato no mesmo contexto em que mencionou a preservação de Noé sugere uma relação entre os dois eventos.

Terceiro, a alusão feita em Judas 6 aos anjos que não guardaram seu estado original: “… e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia”. Semelhante aos casos anteriores, o texto não diz que tais anjos são os filhos de Deus mencionados em Gênesis 6. A maior contribuição de Judas para o assunto vem de uma suposta referência ao livro pseudoepígrafo chamado O primeiro livro de Enoque. A referência de Judas é, na verdade, à profecia do personagem bíblico Enoque e o tema da profecia também não está tratando diretamente dos filhos de Deus. A importância que se tem dado ao comentário feito por Judas é que o livro pseudoepígrafo de Enoque fala muito sobre o assunto. A primeira parte do livro, inclusive, chamada de “as sentinelas” ou “os observadores”, descreve com detalhes o que teria sido o envolvimento desses filhos de Deus com as filhas dos homens. Na versão desse livro de Enoque, os observadores (que são os filhos de Deus de Gn 6) eram mesmo anjos caídos. Segundo o livro, Enoque teria tido um sonho e foi desafiado a interceder por estes anjos caídos (os filhos de Deus), porém não teve êxito em sua missão. Por causa disso, o livro prossegue com uma série de predições da destruição e ruína destes anjos caídos.

O que podemos concluir destes três pontos?

1) Os filhos de Deus eram seres angelicais caídos do seu estado original. Essa conclusão vem das informações que obtemos no livro de Jó, além das considerações de Judas e 2 Pedro. Não faria sentido imaginar que anjos que ainda preservam seu estado original tivessem se envolvido com práticas abomináveis a Deus. 2) Os filhos de Deus não são os nephilins e nem foram os pais dos nephilins. Como já demonstrei no meu post anterior, os nephilins não vieram da união entre os filhos dos Deus e as filhas dos homens. Os filhos de Deus são seres angelicais e os nephilins não. 3) Não há fundamento bíblico para afirmar que os filhos de Deus, entendidos como seres angelicais caídos, eram capazes de tomar a forma humana. No caso dos filhos de Deus “não caídos”, ou seja, seres angelicais que preservaram seu estado original, há relatos deles tomando a forma humana. Um caso curioso é a visita daqueles três varões ao patriarca Abraão (Gênesis 19). Até que Abraão percebesse que dois deles eram anjos e um era o Senhor, uns quatro quilos de picanha já tinham sido assados e comidos. O fato deles terem comido com Abraão demonstra a forma humana que eles tinham naquele momento, para cumprir uma missão específica de Deus. A dúvida é: será que os anjos caídos preservaram, em alguma medida, essa habilidade de tomar forma humana? É precisamente isso que a Bíblia não diz e eu não sei.

Qual foi o pecado cometido pelos filhos de Deus?

A atitude abominável dos filhos de Deus que acionou o julgamento do dilúvio tem a ver com as filhas dos homens e, a respeito deles, nada falamos ainda. Quem foram as filhas dos homens? A tese de que os filhos de Deus seja uma referência aos descendentes de Sete e as filhas dos homens aos descendentes de Caim não se sustenta. O capítulo 5, descrevendo a genealogia de Adão, usou nove vezes a expressão “e teve filhos e filhas” e deve ser o principal contexto para entendermos a identidade dessas filhas dos homens. Assim sendo, a expressão no início do capítulo 6 deve ser entendida como as filhas da linhagem de Adão e não apenas de Caim. Literalmente, a expressão deveria ser traduzida “as filhas do homem [adam]”, no singular. Seria ótimo pensarmos que fosse uma referência ao próprio Adão, mas não é. O substantivo adam na expressão “filhas de homem/adam” tem um artigo definido. Isso quer dizer que não é um nome próprio, mas uma referência à humanidade em geral. De qualquer forma, não há base exegética para afirmar que eram filhas da linhagem de Caim.

Se as filhas dos homens não eram da linhagem de Caim, cai por terra a tese de que o pecado envolvido no relato de Gênesis 6 era o casamento misto. Não foi isso. Alguns comentaristas entendem a frase “tomaram para si mulheres” (Gn 6.2) como sendo uma referência à poligamia. Os filhos de Deus (considerados descendentes de Sete no argumento desses comentaristas) começaram a se envolver com mais de uma mulher – todas que desejaram. Eu não creio que este tenha sido o problema. Se tivesse sido, eu seria forçado a concluir que o severo julgamento trazido pelo dilúvio não cumpriu sua finalidade, pois os filhos de Deus continuaram tendo mais de uma mulher em alguns períodos do Antigo Testamento.

Será que a reação de Deus oferece alguma dica quanto ao tipo de pecado cometido pelos filhos de Deus? A sentença de Deus foi esta: “O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal” (Gn 6.3). Estranho; se o problema foi originado na atitude dos filhos de Deus, por que a sentença não foi: O meu Espírito não agirá para sempre nos filhos de Deus? Será que o problema estava na natureza carnal das filhas dos homens e não nos filhos de Deus? Eu creio que não. Ambos são culpados pela iniquidade praticada nos dias de Noé. A razão da sentença não ter incluído os filhos de Deus (seres angelicais) é porque eles já tinham sido condenados para sempre quando caíram do estado original. O texto bíblico nos informa apenas daquilo que relacionava à raça humana, pois é nela que o Espírito de Deus agia mantendo a vida. Talvez a contribuição de Judas e 2 Pedro nos ajudam a entender aquilo que Gênesis não tratou, a saber, o castigo dos seres angelicais envolvidos nesta prática abominável.

Por fim, lamento dizer e ter que aceitar que o texto bíblico não diz especificamente o que aconteceu. Não vejo base bíblica para crer que os anjos caídos estavam tendo relação sexual com as filhas dos homens e, deste modo, gerando gigantes. Há várias coisas desconexas nesse raciocínio. Primeiro, nephilins e gigantes são duas categorias distintas; já demonstramos isso. Segundo, mesmo que tais relações estivessem acontecendo, a concepção de um ser humano (gigante ou não) depende de uma bênção/milagre concedida somente ao ser humano: “sede fecundos” (Gn 1.28).

Conclusões

  1. Os filhos de Deus são seres angelicais.
  2. Os filhos de Deus não são os pais dos nephilins.
  3. As filhas dos homens não representam os descendentes de Caim.
  4. O pecado que os filhos de Deus cometeram não foi a poligamia e nem o casamento misto.
  5. Qualquer que tenha sido a abominação que os seres angelicais cometeram no meio da humanidade, a sentença dada por Deus interrompeu a anarquia.
  6. A anarquia causada pelos filhos de Deus no meio da humanidade contava com a atuação do Espírito de Deus no ser humano. Isso significa que os motivos para o julgamento trazido pelo dilúvio iam muito além daquilo que imaginamos.

 

Sempre aberto para ser convencido do contrário, aguardo seus comentários e perguntas. Bom Domingo.

 

Daniel Santos

 

Publicado em Ensaios | 4 Comentários

A tolice que se aloja no coração

sep-22-15

Há várias enfermidades que assolam o ser humano, mas aquelas que são conhecidas por querer se alojar no coração (ou ao redor dele) são as mais perigosas. Esse provérbio ilustra esse perigo dizendo que a estultícia está ligada ao coração da criança. Estultícia é a característica do que é ou se apresenta de modo estúpido. A “criança” em vista aqui deveria ter uns 19 anos. Isso mesmo. O termo hebraico que foi traduzido aqui como “criança” é o mesmo que foi usado para descrever o jovem que se envolveu com a mulher adúltera no capítulo 7 do livro de Provérbios. A preferência pela tradução “criança” é geralmente resultado de uma preconcepção em nossa cultura de que não adianta mais bater num filho de 19 anos. A justificativa: se ele não aprendeu até agora, não será a vara que irá fazer isso.

Bem, há vários problemas com essa abordagem. Primeiro, a cultura israelita do período do Antigo Testamento não via a disciplina como a vemos hoje. Disciplinar um filho de 19 anos com vara tinha um valor pedagógico para toda a comunidade na qual aquele jovem estava inserido. Disciplinar com vara no contexto daquela cultura não tem nada a ver com o costume em nossa cultura de “levar o menino para o banheiro e dar-lhe umas palmadas”. A disciplina que o livro de Provérbios tem em mente era pública. Isso prevenia que os pais cometessem excessos no ato de disciplinar. A disciplina era aplicada pelos pais ou pelos anciãos da comunidade. Isso evitava que os motivos para a aplicar dependessem somente da opinião dos pais.

Esse provérbio não está nos obrigando a disciplinar nossos filhos nos moldes da cultura israelita primitiva. Para disciplinar um filho hoje, nos moldes da cultura israelita primitiva, precisaríamos não somente da vara, mas daquela comunidade, daqueles anciãos e daquela cultura. A verdade apresentada é: a atitude de tolice sempre busca se alojar nos corações de nossos filhos e filhas. O tempo não irá fazê-la desaparecer ou afastar-se de seus corações. A vara da disciplina hoje poderia ser um tratamento público (isto é, no contexto de uma comunidade local) da delinquência dos filhos. Isso mostraria não só para nossos filhos, mas também para aqueles que vivem sua delinquência em anonimato, que a comunidade que busca andar nos caminhos do Senhor promove virtudes e não tolices. A propósito, acho necessário dizer que o tipo de tolice e estupidez que este provérbio tem em vista inclui: homicídios por diversão, prostituição, preguiça crônica, mentira e talvez difamação. São estas coisas que o livro de Provérbios considera como estultícia que se aloja no coração.

Daniel Santos

Publicado em Sabedoria em provérbios | Marcado com , | 2 Comentários

Quem foram os nephilins?

 

ens-nephilins

 

O termo “nephilins” é usado no Antigo Testamento para se referir a gigantes, conforme Gênesis 6.4 “Ora, naquele tempo havia gigantes na terra…”. Algumas versões da Bíblia preferem não traduzir o termo hebraico nesta passagem e usam apenas uma transliteração nephilim (NIV). Por que as versões em português traduzem o termo nephilim como gigantes? Há dois motivos principais: Primeiro, a referência feita aos nephilins em Números 13.33 apresenta-os como pessoas cuja estatura era visivelmente desproporcional à dos demais seres humanos:  “Também vimos ali gigantes (os filhos de Anaque são descendentes de gigantes), e éramos, aos nossos próprios olhos, como gafanhotos e assim também o éramos aos seus olhos”. Segundo, a tradução grega do Antigo Testamento escolheu o termo γιγαντες (gigantes) para traduzir o termo hebraico nephilim. Por essa razão, a maioria das traduções para o português preferem seguir o termo grego “gigantes” a usar a transliteração nephilim. A propósito, você sabe o que é uma “transliteração”? Transliterar significa escrever uma palavra que está num idioma diferente, usando as consoantes e vogais do nosso idioma. Transliterar não é a mesma coisa que traduzir.

De onde vieram os nephilins?

É comum ouvir que os nephilins tiveram sua origem no relacionamento entre os filhos de Deus com as filhas dos homens, conforme lemos em Gn 6.4. Os que seguem essa linha de raciocínio entendem a expressão “filhos de Deus” como uma referência a seres angelicais. Como chegam a essa conclusão? Há uma referência no chamado “Primeiro Livro de Enoque” comentando detalhadamente o ocorrido nos dias de Noé. O livro de Enoque é considerado literatura pseudoepígrafa. O que é isso? Um livro considerado pseudoepígrafo significa que seu título ou autor não é verdadeiro; no caso de autor, é um pseudônimo. O livro de Enoque é datado do ano 300 a.C., mas afirma conter palavras do personagem bíblico Enoque, que foi citado, pela primeira vez, na genealogia de Adão (Gn 5.18-24). Embora o Primeiro Livro de Enoque seja considerado parte das Escrituras na Igreja Ortodoxa da Etiópia, ele não aparece nem na Bíblia Hebraica nem na tradução grega chamada Septuaginta.

O livro de Judas menciona um episódio narrado no livro de Enoque nos seguintes termos: “Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo…” (Jd 14). Embora isso não signifique um atestado de veracidade de tudo o que está escrito no Primeiro Livro de Enoque, muitos usam essa referência de Judas para “canonizar” esse livro pseudoepígrafo. Dessa forma, a força do argumento de que os nephilins vieram do relacionamento dos filhos de Deus com as filhas dos homens vem primariamente dos comentários encontrados no Primeiro Livro de Enoque.

O que a Bíblia diz sobre isso? Leia novamente o texto de Gn 6.4: “Ora, naquele tempo havia gigantes [nephilins] na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade”. O texto bíblico não diz que o relacionamento dos filhos de Deus com as filhas dos homens gerou gigantes. Já havia gigantes na terra quando esse tipo de relacionamento aconteceu. O que resultou, desse tipo de relacionamento, foram os “valentes” e “varões de renome”, mas não os gigantes. A discussão se os filhos de Deus eram ou não seres angelicais é irrelevante para a compreensão do texto, pois aquilo que eles geraram não foi chamado de “gigantes.

Então, havia ou não havia gigantes?

O fato de os nephilins não terem vindo do relacionamento sugerido no Primeiro Livro de Enoque não nega a existência de gigantes. Como já foi mencionado, Número 13.33 estabelece uma relação dos nephilins com outros povos da terra, particularmente os Anaquins que eram descritos como gigantes. Os refains também eram considerados gigantes; Deuteronômio menciona especificamente um caso: “Porque só Ogue, rei de Basã, restou dos refains; eis que o seu leito, leito de ferro, não está, porventura, em Rabá dos filhos de Amom, sendo de nove côvados o seu comprimento, e de quatro, a sua largura [4.0 x 1.80 m], pelo côvado comum?” (Dt 3.11).

2016-07-16_1801

 

 

 

 

Publicado em Ensaios | Marcado com , , | 22 Comentários